O DIA EM QUE AS PALAVRAS NÃO CONSOLAM
"Eu sei que o meu Redentor vive e que, no fim, se levantará sobre a terra." Jó 19:25
Existem dias em que as palavras não alcançam a dor. Alguém se aproxima, coloca a mão sobre o nosso ombro e tenta encontrar alguma coisa para dizer:
— Vai ficar tudo bem. Mas não está tudo bem.
— Deus sabe o que faz. Nós sabemos que Deus sabe. O problema é que, naquele momento, nós não entendemos o que Ele está fazendo.
— Você precisa ser forte. Mas já usamos todas as nossas forças apenas para levantar da cama, responder algumas mensagens e atravessar mais um dia sem desmoronar diante de todo mundo.
Há momentos em que as palavras, mesmo ditas com boas intenções, parecem pequenas demais diante do tamanho da ausência. Jó conheceu esse lugar. Ele não perdeu apenas bens ou estabilidade financeira. Jó perdeu seus filhos, sua saúde, sua rotina, sua segurança e as referências que sustentavam sua vida. Em pouco tempo, tudo o que parecia firme desapareceu.
A casa ficou vazia, o corpo adoeceu, os planos morreram, as perguntas começaram e as respostas não vieram. Talvez uma das partes mais dolorosas da história de Jó seja perceber que, além de enfrentar o sofrimento, ele também precisou ouvir pessoas tentando explicar aquilo que nem elas compreendiam.
Seus amigos chegaram e, durante sete dias, ficaram em silêncio. Enquanto ninguém falou, eles foram companhia, o problema começou quando decidiram que precisavam encontrar uma explicação. Tentaram transformar a dor de Jó em uma equação simples:
"Se você está sofrendo, deve ter feito alguma coisa errada."
"Se Deus permitiu isso, deve existir um motivo evidente."
"Se você corrigir sua vida, tudo voltará ao normal."
Mas a dor nem sempre cabe nas explicações que criamos. Nem todo sofrimento é consequência direta de uma escolha errada, nem toda perda apresenta imediatamente uma lição, nem toda tragédia pode ser organizada em uma frase bonita.
Existem perdas que deixam perguntas abertas, existem despedidas que chegam antes do tempo, existem orações que parecem ter atravessado o teto sem encontrar resposta., existem dias em que a pessoa não precisa de uma explicação teológica. Ela precisa de alguém que se sente ao seu lado e não tente apressar o seu luto.
Talvez você conheça esse lugar, o lugar da cadeira vazia, da roupa que continua guardada, do número que ainda permanece salvo no celular, da fotografia que você olha e, por alguns segundos, quase acredita que tudo continua como antes.
Talvez você ainda escute uma voz na memória, talvez tenha imaginado conversas, viagens, aniversários e futuros que não aconteceram, talvez alguém tenha lhe dito que você precisa seguir em frente, mas ninguém explicou como continuar caminhando quando uma parte de você ficou presa no dia da perda.
Há pessoas enterrando sonhos enquanto continuam trabalhando, sorrindo e respondendo: - Estou bem.
Mas não estão. Por dentro, ainda estão sentadas entre as ruínas, como Jó e talvez a pergunta mais honesta seja: - Deus, onde o Senhor estava quando tudo isso aconteceu?
Muitas pessoas têm medo de fazer essa pergunta, pensam que questionar significa abandonar a fé. Mas Jó questionou, Jó chorou, Jó lamentou o dia em que nasceu, Jó disse que não encontrava descanso, tranquilidade ou paz.
Ele não tentou parecer forte diante de Deus, não enfeitou a própria dor, não transformou sofrimento em discurso religioso. Jó levou para Deus exatamente aquilo que havia dentro dele: confusão, raiva, medo, cansaço, saudade, silêncio.
A fé verdadeira não exige que escondamos aquilo que sentimos. Deus não se assusta com as nossas perguntas, Ele não se afasta quando choramos, Ele não precisa que organizemos as palavras antes de nos aproximarmos.
Podemos chegar diante dele e dizer: — Senhor, eu ainda creio, mas estou ferido. Eu sei que o Senhor está aqui, mas hoje não consigo perceber. Eu quero continuar, mas não sei como. Eu não tenho respostas. Só tenho dor. Isso também é oração.
Talvez uma das expressões mais profundas de fé seja continuar falando com Deus mesmo quando não compreendemos Deus. Jó não declarou que seu Redentor vivia depois de tudo estar resolvido. Quando ele disse: "Eu sei que o meu Redentor vive", sua saúde ainda não havia sido restaurada, seus filhos não haviam voltado, as perdas continuavam sendo reais, as perguntas permaneciam abertas.
Aquela declaração não nasceu de uma vida reconstruída, nasceu no meio dos escombros. Era uma fé ferida, mas ainda viva.
Jó não estava dizendo: Eu entendo tudo. Ele estava dizendo: mesmo sem entender, ainda existe algo que a dor não conseguiu arrancar de mim. O sofrimento levou muitas coisas, mas não conseguiu matar completamente sua esperança.
Essa talvez seja a fé possível para hoje. Não uma fé que sorri o tempo inteiro, não uma fé que possui explicações para todas as tragédias, não uma fé que finge que a ausência não dói, mas uma fé que, entre lágrimas, ainda consegue sussurrar: — Meu Redentor vive.
Talvez hoje você não consiga declarar isso em voz alta, talvez só consiga pensar, talvez nem consiga pensar, apenas respirar. Está tudo bem. Deus também ouve orações que não conseguem se transformar em palavras, Ele compreende lágrimas que ninguém percebe, Ele conhece o peso das noites em que o corpo está cansado, mas a mente continua revivendo aquilo que aconteceu, Ele permanece quando todo mundo volta para a própria rotina e você descobre que sua vida nunca mais será exatamente a mesma.
O Evangelho não promete que nunca enfrentaremos perdas, o Evangelho revela que não enfrentaremos as perdas sozinhos. Jesus também chorou diante de um túmulo. Mesmo sabendo que Lázaro ressuscitaria, Ele não repreendeu o choro de Maria e Marta. Ele não disse: — Parem de chorar, porque tudo dará certo. Jesus chorou com elas.
Isso nos mostra que a esperança não cancela o luto. Saber que Deus continua sendo Deus não torna a ausência menos dolorosa. Crer na eternidade não impede que sintamos saudade. A fé não elimina as lágrimas. Ela nos oferece um lugar seguro para derramá-las.
Por isso, não tenha pressa para parecer curado, não se culpe por ainda sentir, não aceite que transformem sua dor em falta de fé. Algumas feridas não desaparecem; elas mudam de forma. Com o tempo, talvez você aprenda a respirar ao redor da ausência. Talvez volte a sorrir sem sentir culpa, talvez consiga contar a história sem perder completamente a voz.
Mas haverá dias em que uma música, uma data ou um cheiro abrirá novamente uma porta dentro de você, nesses dias, não pense que voltou ao início. O luto não é uma estrada reta, é um caminho cheio de retornos, pausas e silêncios.
Deus não exige que você atravesse esse caminho correndo, Ele caminha no seu ritmo. Talvez hoje as palavras não consolem, talvez nenhuma frase seja capaz de explicar por que aconteceu, mas, quando todas as respostas falham, ainda existe uma presença: o Redentor continua vivo.
Ele permanece sentado ao lado de quem chora, permanece no quarto silencioso, permanece durante as madrugadas, permanece quando a oração é apenas um suspiro, permanece quando a fé parece pequena demais.
Você não precisa compreender tudo para ser sustentado, não precisa encontrar uma explicação para cada perda.
Hoje, talvez seja suficiente continuar respirando. Talvez seja suficiente dizer: — Deus, eu não entendo. Mas não quero atravessar isso sem o Senhor. E, mesmo que você não consiga dizer nada, Ele continuará ali. Porque há dias em que as palavras não consolam. Nesses dias, é a presença de Deus que nos mantém vivos.
MOTIVO DE ORAÇÃO
Ore pelas pessoas que estão enfrentando perdas, luto, diagnósticos difíceis e sofrimentos que não conseguem explicar. Peça para que Deus lhes conceda consolo, força para atravessar cada dia e liberdade para viver o luto sem culpa.
Ore também para que sejamos pessoas capazes de permanecer ao lado de quem sofre, sem oferecer respostas fáceis, julgamentos ou frases prontas.
SUGESTÃO DE MÚSICA:
Mesmo sem entender - Thalles Roberto