O AMANHÃ JÁ ESTAVA NO CORAÇÃO DO PAI
Quando ainda estava longe, seu pai o viu e, cheio de compaixão, correu para seu filho, e o abraçou e beijou. Lucas 15:20
Hoje é Dia dos Pais, e o dia amanheceu estranho por aqui. Este seria o meu primeiro Dia dos Pais com Mariah nos braços. Provavelmente ela estaria vestindo alguma coisa do Flamengo, porque algumas decisões precisam ser tomadas enquanto os filhos ainda não possuem capacidade para contestá-las. Eu dizia que ela seria flamenguista porque não havia outra possibilidade. Afinal, somos uma nação de mais de 40 milhões de pessoas. Eu já tinha decidido que a levaria ao Maracanã ainda criança. Queria que ela sentisse cedo aquele arrepio que eu só pude experimentar adulto.
É curioso perceber que ela ainda estava chegando ao mundo e eu já tinha planos para anos que estavam muito distantes de nós. Desde que descobrimos que Mariah viria, pensar no futuro dela se tornou instintivo. Não houve uma decisão consciente de que eu precisava fazer aquilo. Simplesmente aconteceu. De repente, o futuro de alguém que ainda estava sendo formado passou a ocupar um lugar central no meu presente.
Tudo o que eu podia fazer para gastar menos e guardar para ela, eu fazia. Hoje me arrependo de algumas dessas economias. Até no quartinho dela quis gastar o mínimo possível, porque olhava para determinado valor e pensava que aquele dinheiro poderia ser guardado. Hoje talvez tivesse comprado o enfeite caro, a coisa desnecessária, aquilo que provavelmente ela nem usaria. Mas eu não sabia. Naquele momento, economizar também era uma forma de amar.
Houve uma fase em que eu me sentia praticamente um economista. Estudava juros compostos, fazia projeções e calculava quanto Mariah teria aos dezoito anos se eu começasse a guardar ainda durante a gestação. Ela nem tinha nascido e eu já estava fazendo contas para 2044. Quando alguém perguntava se eu tinha dinheiro, muitas vezes respondia que não. E era verdade: eu não tinha, mas ela tinha. Em poucos meses já existia um valor na caixinha da Mariah. Meu salário caía e, antes de algumas dívidas, compromissos ou vontades minhas, uma parte ia para lá. O dinheiro estava na minha conta, vinha do meu trabalho e pertencia a alguém que sequer sabia o que era dinheiro. Mas, para mim, já era dela.
Meus planos também iam muito além disso. Eu dizia que Mariah seria missionária. Não necessariamente alguém que carregaria “missionária” antes do nome para sustentar um título, mas alguém que realmente viveria por pessoas. Eu queria ensiná-la desde cedo que gente importa, que pessoas não são interrupções no caminho da missão; pessoas são o motivo dela. Queria que aprendesse a perceber quem ficou de fora, a se aproximar de quem ninguém queria por perto e a compreender que não existe amor verdadeiro por Jesus que nos permita desprezar gente.
Se seria médica, engenheira, arquiteta, empresária ou qualquer outra coisa, isso não me importava tanto. Eu queria que fosse bendita em tudo aquilo em que colocasse as mãos, apaixonada por Jesus e apaixonada por vidas.
Só depois percebi o que havia em comum em praticamente todos esses planos: eles falavam sobre destino. Eu olhava para uma criança no começo da vida e imaginava a mulher que ela se tornaria. Guardava aquilo que ela nunca havia pedido, preparava coisas que ela nem sabia que precisaria e sonhava por alguém que ainda não tinha condições de sonhar sozinha.
Talvez exista alguma coisa instintiva em um pai que o faça olhar para o começo e pensar imediatamente no destino.
E foi me tornando pai que uma pergunta começou a ganhar outro peso para mim: será que Deus pensa assim quando olha para nós?
Talvez estejamos tão acostumados com nossa orfandade que conseguimos reconhecer Deus como Senhor, Rei, Criador, Juiz e Todo-Poderoso, mas ainda temos dificuldade de reconhecê-lo como Pai. E um pai não olha somente para onde o filho está; ele pensa também em onde aquele filho poderá chegar. Enquanto o filho está preocupado com o desejo de agora, o pai precisa considerar consequências que ele ainda não consegue enxergar.
Penso em uma criança pequena que acabou de aprender a comer e vê o pai usando uma faca para cortar a carne. Ela quer a faca. Estende a mão, insiste e provavelmente fica extremamente irritada quando o pai não permite. Se conseguisse organizar seus argumentos, talvez dissesse que ele não confia nela, que está sendo injusto ou que simplesmente quer controlar tudo.
Mas o pai não retira a faca porque deseja mantê-la criança. Ele a retira justamente porque sabe que ela vai crescer.
A criança enxerga a faca que deseja segurar; o pai consegue enxergar o ferimento que ela ainda não tem maturidade para evitar. E o mesmo pai que hoje diz “não” consegue imaginar aquela criança alguns anos depois, diante de um banquete, cortando sua própria carne sem deixar um rastro de sangue e feridas sobre a mesa. Ele não está impedindo o futuro dela. Está tentando preservá-la para que chegue até ele.
Talvez algumas das nossas maiores crises com Deus aconteçam nesse desencontro. Julgamos o coração do Pai a partir do pequeno pedaço da história que conseguimos enxergar. Queremos determinada porta, pessoa, oportunidade ou caminho e, quando alguma coisa nos é negada, facilmente interpretamos proteção como punição, espera como abandono e limite como falta de confiança. Nem todo sofrimento pode ser explicado dessa maneira, e seria cruel tentar fazê-lo. Mas existem momentos em que o “não” de um pai não nasce da ausência de futuro; nasce justamente porque existe um futuro.
Ser pai me fez perceber outros atributos do amor. Um pai prepara antes que o filho peça, guarda antes que ele compreenda o valor, corrige mesmo correndo o risco de ser mal interpretado, estabelece limites quando seria mais fácil ceder e enxerga possibilidades que o filho ainda não consegue enxergar em si mesmo. E talvez uma das características mais bonitas seja esta: um pai continua desejando o caminho de volta mesmo quando o filho decide ir embora.
Por isso, a história que costumamos chamar de parábola do filho pródigo ganhou outro significado para mim.
O filho mais novo chega ao pai e pede sua parte da herança. Estamos tão acostumados com essa narrativa que podemos não perceber a violência daquele pedido. Herança é aquilo que normalmente se recebe depois da morte. Em outras palavras, aquele filho estava dizendo: “Eu quero o que é seu, mas não quero você. Quero viver como se você já estivesse morto.”
Mas Lucas registra um detalhe importante: o pai repartiu os bens entre eles. O filho mais velho também recebeu.
Um recebeu e foi embora. O outro recebeu e ficou.
Um matou simbolicamente o pai saindo de casa; o outro aceitou a mesma divisão e permaneceu nela. Um queria desfrutar dos bens do pai longe de sua presença; o outro, como descobrimos depois, permaneceu relacionando sua obediência àquilo que acreditava merecer receber. Um conseguiu se perder numa terra distante. O outro conseguiu se perder sem sair de casa.
Talvez seja possível viver como órfão até dentro da casa do Pai.
Quando o filho mais novo perde tudo e decide voltar, ele ensaia um discurso. Já não imagina que pode ocupar novamente o lugar de filho; quer negociar uma vaga entre os empregados. Mas Jesus diz que, quando ele ainda estava longe, o pai o viu.
Gosto muito desse detalhe.
O filho estava preparando uma justificativa. O pai estava esperando um filho.
Ele retorna tentando negociar trabalho, mas encontra abraço. Antes que consiga transformar sua volta em contrato, aparecem roupa, anel, sandálias e uma mesa sendo preparada. O filho ainda estava tentando descobrir como voltar, mas o caminho de volta já estava no coração do pai.
E a história poderia terminar ali, mas Jesus continua.
Quando o irmão mais velho descobre a festa, fica indignado e se recusa a entrar. Então o pai sai novamente. Ele corre para encontrar o filho que estava perdido longe e sai de casa para encontrar aquele que estava perdido perto. Vai ao encontro dos dois.
Isso muda a parábola para mim. Talvez ela nunca tenha sido apenas sobre um filho que desperdiçou uma herança. Talvez seja, sobretudo, sobre um Pai que continua indo ao encontro de filhos, sejam eles quais forem: o rebelde ou o religioso, o que foi embora ou o que permaneceu, o que desperdiçou tudo ou o que transformou obediência em moeda de troca.
Os dois precisavam descobrir que, antes de qualquer herança, havia um Pai.
E talvez nós também.
Não quero, porém, transformar essa reflexão em uma tentativa de comparar Deus comigo. Eu sou um homem que se culpou por muitas coisas, revisitou decisões e se perguntou incontáveis vezes o que poderia ter feito diferente. Até aquela economia no quartinho ganhou outro significado depois. Deus não é um homem sentado em uma cadeira precisando encontrar justificativas para suas decisões. Ele não precisa da minha aprovação para continuar sendo bom, nem de um texto meu para defender seu caráter.
Também não quero transformar a paternidade de Deus numa resposta fácil para a dor. Existem acontecimentos que continuo sem compreender. Existem perguntas que permanecem perguntas, e algumas feridas não desaparecem porque encontramos uma analogia bonita para elas. Não precisamos chamar tragédia de coisa boa para provar que continuamos tendo fé.
Hoje é Dia dos Pais.
Este seria o primeiro em que eu teria Mariah nos braços.
Provavelmente eu abriria a caixinha dela para descobrir quanto tinha rendido. Talvez fizesse mais uma das minhas projeções absurdas para os dezoito anos. Ela estaria com alguma coisa do Flamengo, e eu provavelmente já estaria calculando com quantos anos seria apropriado levá-la ao Maracanã. Continuaria imaginando sua infância, sua fé, suas escolhas, sua profissão e a mulher que se tornaria.
Não deu.
Não quero enfeitar essas duas palavras. Algumas dores ficam menores quando paramos de tentar transformá-las imediatamente em poesia.
Não deu.
Eu não vou descobrir se ela realmente seria flamenguista ou se passaria a infância inteira torcendo para outro time só para provocar o pai. Não verei qual profissão escolheria. Não vou assistir aos seus dezoito anos chegarem nem descobrir se todas aquelas minhas contas de juros compostos funcionariam. Havia um futuro inteiro dentro de mim com o nome dela, e talvez uma das partes mais difíceis da perda seja também precisar se despedir das pessoas que imaginamos que alguém se tornaria.
Por isso, meu desafio hoje não é explicar Deus. É continuar encontrando um Pai no meio do caos.
Talvez fé nem sempre seja compreender. Há dias em que fé é simplesmente permanecer filho quando não entendemos o Pai. É continuar chamando-o assim quando existem perguntas que gostaríamos que fossem respondidas. É acreditar que seu caráter não mudou porque nossa história tomou uma direção que jamais escolheríamos.
E talvez tenha sido justamente Mariah quem me ensinou isso.
Ela nunca soube da maior parte dos meus planos. Nunca soube quanto havia na caixinha. Nunca soube que eu estudava juros compostos por causa dela. Nunca soube que já tinha imaginado nós dois entrando no Maracanã. Nunca soube das conversas que eu imaginava ter quando ela crescesse, dos valores que queria ensinar ou das tantas versões de futuro que visitei enquanto ela ainda estava no começo da vida.
Ela não sabia.
Mas eu sabia.
Ela não precisava pedir para que eu guardasse. Não precisava compreender para que eu preparasse. Não precisava conhecer o caminho para que eu pensasse em destino.
O amanhã já estava no coração do pai.
Hoje, de alguma maneira, os lugares se inverteram. Sou eu quem não sabe. Sou eu quem não consegue enxergar depois de algumas curvas. Sou eu quem pergunta, quem gostaria de compreender certos “nãos”, quem olha para algumas portas fechadas sem saber o que existe depois delas.
Sou eu quem precisa aprender novamente a ser filho.
Talvez ser pai tenha sido a maneira mais bonita e mais dolorosa de Deus me ensinar isso. Não porque agora tudo faça sentido. Não faz. Mas porque, durante algum tempo, experimentei o que é amar alguém e imediatamente começar a pensar no seu amanhã.
Se eu, limitado, falho e incapaz de enxergar sequer o próximo dia, conseguia olhar para minha filha e pensar nos seus dezoito anos, talvez consiga compreender um pouco melhor o coração de um Deus que escolheu ser chamado de Pai.
Um Pai que prepara antes que o filho perceba. Que conhece o caminho antes que ele comece a andar. Que sai ao encontro quando ele se perde longe e também quando se perde dentro de casa. Que não está apenas interessado em entregar heranças, mas em formar filhos. Que conhece o destino quando nós só conseguimos enxergar a próxima curva.
Hoje eu queria estar com Mariah nos braços. Queria a pequena camisa do Flamengo, a fotografia do nosso primeiro Dia dos Pais e até a minha consulta desnecessária ao rendimento da caixinha. Queria o futuro que imaginei.
Em vez disso, tenho diante de mim o desafio de confiar. Não em uma explicação, em um Pai.
Porque talvez um filho nunca consiga enxergar tudo aquilo que existe no coração de quem o ama. Mariah não conseguiu enxergar todos os amanhãs que eu havia sonhado para ela, mas eles existiram dentro de mim desde o instante em que soube que ela viria.
E hoje, quando sou eu quem não consegue enxergar o amanhã, escolho me lembrar de que também sou filho.
Talvez eu não conheça o caminho inteiro. Talvez ainda existam perguntas sem resposta. Talvez algumas ausências continuem doendo por muito tempo.
Mas a minha incapacidade de enxergar o futuro não significa que o Pai tenha perdido o destino de vista.
Muito antes de eu compreender o caminho, Ele já o conhece. Muito antes de eu saber o que existe depois daqui, Ele já está lá.
O amanhã já estava no coração do Pai.
Motivo de oração
Ore para que Deus cure em nós toda sensação de orfandade e nos ensine a reconhecê-lo verdadeiramente como Pai. Entregue a Ele os futuros que você planejou, as respostas que ainda não chegaram, as portas que se fecharam, as perdas que continuam doendo e os caminhos que você não consegue compreender. Peça maturidade para confiar sem precisar transformar toda dor em explicação e sensibilidade para perceber que, mesmo quando nossos olhos não conseguem enxergar depois da próxima curva, o Pai continua conhecendo o caminho. Que aprendamos a permanecer filhos e a descansar na certeza de que o amanhã continua em seu coração.